Em meio aos turbilhões de fantasias que habitavam em mim, recebi uma notícia que ainda estava por vir. Testemunhei durante dias minha singela, porém muito aguardada, vitória sobre os aspectos corpóreos compostos por poesia e inspiração. Também compreendi que outros astros poderiam pairar através do firmamento, caso minha dinâmica metafisica pessoal tomasse forma e agisse conforme a torrente de devaneios transitórios que preenchem meus poucos e raros instantes introspectivos. Tudo bem, eu pensei, mas o que eu queria de fato e imediatamente era possuir aquela imagem que se materializava no reflexo vivaz e impetuoso do meu espelho. Nessa duplicata de gênero diferenciado eu vislumbrava fartas gargalhadas, argumentações velozes, personalidade intensa e uma tentadora constituição delgada, misteriosa e, muito provavelmente, narcótica. Vislumbrei os céus e, como os condenados que tem a alma purificada pela tortura pungente do carrasco, a única coisa que me restou foi a proclamação de uma súplica: Caminho tortuoso que nos conduz, tende piedade de nós.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Áspera
Senti sua palavra áspera descer pela minha garganta, arranhando
minha confiança e desordenando o que não é capaz de ser racionalizado. Por
subsequentes madrugadas, assisti em estado de tensão, a última apresentação do
mesmo rolo de filme, que tinha como tema principal, mas não exclusivo, minha
estadia em um porto inconcebível de águas ora cristalinas, ora traiçoeiras.
Tentei me convencer de que o intervalo médio entre nossa concepção, não seria
obstáculo para quando fossemos presenteados com o dom da caminhada cognitiva.
Nisso eu tinha razão. Também em pouco tempo, fui capaz de edificar o prazer das nossas reflexões conjuntas, em detrimento de uma calcificação genética mal assentada.
O compasso desvairado das rotações e translações faz com que fiquemos abismados
nos momentos em que esses eventos se manifestam. Estranho mesmo foi passar um
dia inteiro esbarrando em lembranças e fantasias juvenis, e de repente, como em
um espetáculo pirotécnico que é interrompido abruptamente pelo advento de uma
tempestade recheada de ventos impetuosos, depois de ter aparado meu desagrado, você
sumiu da minha mente. Mas a azia causada pela rispidez das sentenças
previamente anunciadas, ainda me preocupa. Dizem que o melhor tratamento para
essas coisas é cuidar bem da alimentação, no meu caso, sem mais retardos, deglutir
as minhas próprias soluções.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Todos nós.
A mosca que se arrasta sobre meu rosto, a aranha que mora na
conjunção da minha prisão, o mosquito que se oculta na estrutura do meu alívio,
a barata que marcha pelo altar da comunhão, o rato que reside nos dejetos dos
dejetos, o asco, a fobia, o desprezo. Nada é tão assustador quanto a fera que
nos persegue em um sonho infindável, a fera com o olhar, propósito e essência assassina,
a fera domável, e que mesmo assim, tem a condescendência de seu mestre para
obliterar as vísceras alheias ao menor vestígio do odor intolerável do medo. No
percurso de descida das sete camadas, um ancião nos revelou, em apenas poucos
segundos, que ídolos incompreensíveis são nossa única chance de salvação. Colapsos
doentios se espalharam com violência sobre a multidão e o caos e o terror
reinaram. Ferragens animadas fragmentaram e pulverizaram a carne, oradores impecáveis se
esquivaram do fardo, anunciações populares prestaram adoração à indignação, a
massa sofreu, a ceifa agiu e o intervalo contínuo não testemunhou nada de novo.
E diante desse destino, ao compreender que o todo se deteriora ao nosso redor,
e que, na promessa de vingança, a humanidade aceita e se alimenta dessas nefastas
e tardias carnificinas, os justos choraram.
domingo, 14 de abril de 2013
Lhes declaro.
Aconteceu em uma noite agonizante de uma data trivial.
Perdido nas memórias de uma festa que aconteceu há muito tempo, ele viu uma
alma que, de modo inocente, já havia sido presenteada por sua mais íntima e sincera
oferenda atemporal e que agora estava trilhando um dos caminhos sem volta.
Essa estrada específica é sem volta em sua, mas não concebida somente por si, concepção
ideal de um mundo sem atropelos filosóficos, individualistas, egoístas e
sanguinários. Tratasse de uma jornada que, constantemente, aprisiona pobres
peões em correntes sagradas e que constrói as instituições mais belas e ao
mesmo tempo mais perversas de que já se teve notícias. A alma que havia sido
fitada por seus olhos virtuais já lhe despertara todos os tipos de sentimento, o
amor supracitado, a inveja que oxida as convicções primas, a pena que alimenta
o orgulho e até mesmo a ira de temível, inconsequente, irreparável e
imprevisível presença. Dessa vez, nesse cenário, nessa noite de curtas horas, nesse
cubículo caótico de odores e configurações detestáveis, ele não soube o que
sentir. Não teve coragem de lhe desejar sorte, não teve vontade também, nem ao
menos sabia se isso faria alguma diferença, pois não era em seus desejos,
fossem quais fossem, que o destino se embasaria para dar ou tirar qualquer fato
pertinente da existência futura daquela compleição metafísica. A conjunção
temporal definitiva ainda estava por vir, e com ela suas consequências. A ele, solitário e amargurado, o único fardo que lhe restou foi o de sua própria vida.
sábado, 13 de abril de 2013
Campeões vespertinos.
Lembrei-me de uma época negra, em que vivia acompanhado por
campeões, e conosco sempre estavam os espólios gloriosos de batalhas, que ainda
hoje podem ser ouvidas. Nesse mesmo período, conheci gigantes de uma ilha
distante, que entoavam canções curiosas e que serviram de inspiração para
fragmentos textuais, que, por várias vezes, foram vistos como marginais por membros
ignorantes de uma sociedade sórdida. Os gigantes nos aconselharam, a mim e aos
campeões, a nunca falarmos sobre a morte, pois um mago paranoico poderia, com a
ajuda de uma mulher maléfica, nos conduzir ao desespero profundo e sem fim. Em
uma vila sonolenta nós visitamos uma caravana interplanetária. Compramos
mantimentos para a continuação de nossa jornada e trocamos uma nota musical por
uma aliança carnal entre um anão bárbaro e uma serpente albina. Testemunhamos crianças
que saiam de suas covas em busca de mudanças para seus futuros arruinados. Ouvimos
contos que eram apresentados em coro por homens férreos, torturados pela amargura de não
haver mais vagas nem no céu nem no inferno para suas almas malditas. Nesse momento,
um buraco se abriu nos céus e de lá, cavalgando em um animal de dez cabeças,
apareceu um cavaleiro de neon. Ele trazia em sua mão esquerda uma espada de
prata, e na direita uma mensagem datilografada em código binário. Depois de
sessenta e oito horas descobrimos que deveríamos marchar para o norte, onde
havia uma missão vital para concluirmos. Seguimos a sétima estrela e depois de
nascermos novamente chegamos ao nosso destino. Desumanizamos o ídolo eterno,
envenenamos o poço dos desejos, levamos um povo à liderança, sabotamos um castelo
de fumaça, escrevemos feitiços na pele de um cordeiro, e depois de termos libertado nossas mentes das preocupações de um cotidiano inexistente, falecemos na
promessa da juventude eterna.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Domingo 23:54.
Ali estava ela, sentada na janela, olhando o fim do mundo,
como se houvesse alguma novidade naquilo.
Uma ou duas companhias já seriam suficientes para tapar o buraco que
havia no meio do quarto. Compartilhar uma ideia original, uma piada sem graça,
ou mesmo um pensamento idiota já seriam uma novidade para a semana exaustiva que
ainda estava por vir. As olheiras profundas não deixavam dúvidas de que o
cansaço era seu maior inimigo. Mas cansaço de que? Pergunta tão fácil de ser
respondida que ela nem se dava o trabalho de refletir sobre o assunto. Viu um
gato caminhar pelo telhado vizinho e pensou que o bichano podia virar um pombo,
voar até o outro prédio, se transformar em aranha, pegar um clarinete
emprestado com o garoto que dormia, tocar Coltrane e encher o saco da
vizinhança. Riu do próprio devaneio. Tomou um farto gole d’água da garrafa de plástico vagabundo que estava ao seu lado. Viu que não havia estrela no
céu, normalmente já era difícil de ver alguma, mas as nuvens que cobriam a
noite impossibilitavam a aparição dos astros. Teve saudades do interior. Os olhos
estavam cada vez mais pesados. Se não tivesse aquele compromisso desagradável
na manhã seguinte ia ver algum filme besta na televisão, esses mal dublados de
fim de noite. Olhou para o relógio e contou quantas horas iria dormir se
pegasse no sono naquele exato instante. Ouviu uma sirene e refletiu que não
queria estar na rua, mas seu atual abrigo também não era o que desejava. Lembrou-se
do almoço. Ficou imaginando quantas pessoas estariam acordadas àquela hora,
pensando que deveriam estar dormindo. Na verdade, ela também estava perdida nessa ideia. Foi escovar os dentes e matou um mosquito no corredor. Escolheu
a última música da noite com muito cuidado, o processo levou sete minutos e
atrasou seu sono em pelo menos vinte e oito. A última música nunca é a última,
não resistiu, ouviu mais cinco. Olhou de novo para o relógio. Não ficava mais
desesperada, a rotina já havia lhe anestesiado. Desligou o som, se benzeu,
deitou-se com a barriga para cima, olhou para a penumbra que se formava em seu
quarto, respirou fundo, seus olhos se fecharam lentamente e pouco antes de pegar no
sono, chorou em silêncio.
sábado, 6 de abril de 2013
Sete dias.
Depois do descanso foi decretado um estado de calamidade
continua durante sete dias. No primeiro dia ele assistiu especialistas regurgitarem
teorias que podiam salvar sua vida ,quando o ferro e o fogo tomassem conta do
oceano. No segundo dia ele teve um encontro repentino com uma figura divina de
feições perfeitas e um olhar cativante, que jurou proteção aos seus queridos, desde que assinasse um contrato com suor e sangue. No terceiro dia ele foi
obrigado a atravessar um rio de chamas mortais, e mesmo com medo, depois de
cumprir a tarefa, se sentiu bem. No quarto dia sua alma, acompanhada de mais
vinte e três, se agarraram a dispositivos de sobrevivência mutua, após terem se
lançado voluntariamente a um lago de águas turvas. No quinto dia ele assistiu a
história do imaginário humano, exposta sobre papéis e telas complexas, nesse dia
quando chegou ao seu lar teve seu coração perfurado pelo ódio. No sexto dia
testemunhou obras inacreditáveis, se entregou a gula e desejou a companhia certa
para a noite perfeita. No sétimo dia o sol lhe cegou, rezou em vão, e desejou
outra realidade, pois seu calabouço e seu carrasco já estavam a sua espera.
terça-feira, 26 de março de 2013
Intermitência laboral.
Deslizei quarenta minutos pelo subterrâneo para encontrar um
simpático texugo que me deu como tarefa a busca por um papiro. Caminhei por uma
cidade inteira, atravessei um rio leitoso, escalei oito lances de escada, encontrei
espíritos em procissão, transpassei um presidente, entrei em uma catedral,
corri pelo século XVII, assisti um coro juvenil, testemunhei um brado imperial,
me acomodei na antiga morada de uma rainha, vislumbrei paredes banhadas a ouro,
ajoelhei-me diante de um anjo, olhei para minha infância, me perdi em novecentos
e oitenta e sete títulos, apartei o conflito de burocratas, me alimentei ao
lado de anciões ignorantes, me indignei com o desejo, observei o cavaleiro de
metal, andei por corredores de madeira, conversei com desconhecidos, vi a
pobreza, vi a indiferença, vi o vício, e por fim, ouvi sinos que me delataram o
caminho, e no alto de uma montanha, dentro de um baú, em cima de um
travesseiro, enrolado peculiarmente, estava o papiro que o texugo havia
mencionado. Levei imediatamente o artefato para o animal, que com uma piscadela
e um sorriso satisfeito, apanhou aquele singelo objeto e disse: “Pronto, agora
a culpa é toda sua.”.
terça-feira, 19 de março de 2013
Refeições.
Acordei indisposto, mas mesmo assim me dirigi ao purgatório.
No café da manhã foram servidos veludo, submissão, e um naco de carne com muita
gordura, o melhor foi poder pagar com agressividade, insultos e com uma bela
segmentação vívida das minhas reservas genéticas. O almoço foi frio,
misterioso, e digno de contemplação e desejo, no fim tive a chance de quebrar o
clima estranho e ganhei como recompensa um sorriso formoso, um olhar charmoso e
um código promissor. Quando cheguei a minha casa, um pequeno lanche vespertino
estava a minha disposição, nele encontrei uma dose cavalar de insatisfação e muita
curiosidade por conta do que havia por baixo do tecido negro. A refeição foi devidamente
tratada com provocações e um recipiente sedoso acabou molhado por um acidente
não acidental, mas foi só. Mais tarde, de surpresa, fui agraciado com a última
ceia, essa sim saborosa, cálida, completa, permissiva, que começou com tons comportados
e contidos, mas que se revelou com rapidez insana e intensa, proprietária de
uma textura suave, perfumada e viva, a melhor em anos devo admitir. Ainda tive
a oportunidade de desfrutar de reflexões originais como sobremesa, fato que me
surpreendeu agradavelmente. Dormi como pedra e o melhor de tudo foi, na manhã
seguinte, despertar em outros ares.
domingo, 10 de março de 2013
No fim.
Não havia dia lá, somente a
escuridão. Não era possível contabilizar o tempo, fato que me levava a uma
confusão incomum, já que até ali eu havia sido adestrado a seguir as mazelas
impostas pelo mesmo. Acima de minha cabeça
era possível contemplar um céu coalhado de estrelas, o que de alguma forma me
trazia esperança. Porém era uma caminhada estranha, não sabia para onde estava indo,
mas meus pés continuavam insistindo em me conduzir para algum lugar. No fim
acho que não havia outra opção. Praticamente todas as iniquidades fisiológicas eram ausentes lá,
mas eu continuava recheado de sentimentos, era o que restava. Existiam outras
pessoas que faziam essa caminhada, porém elas pareciam não ser agraciadas com o
dom da comunicação, pareciam todas conformadas com a procissão de tom fúnebre que
se desenvolvia ali. A maioria era proprietária de olhares e expressões
indiferentes. Além das pessoas, nos acompanhava um uivo constante proveniente
do vento, hora quente, quando soprava contra nosso rosto, hora gélido, quando parecia
nos empurrar, como se estivesse dando forças para que a caminhada se
concluísse. Consegui entender que aquele local se tratava de um deserto, mas
não esses de dunas altas e areia pálida, se tratava de um desses desertos de
pedras, com um solo rígido e que maltrata os pés e o corpo de quem acaba pisando
ou tropeçando em alguma rocha no caminho. Essa era outra coisa possível de ser
sentida ali, dor. Todo meu corpo já estava exaurido, os pés ardendo, pois suas solas
já haviam se tornado carne, mas por algum motivo desconhecido era impossível
parar e descansar. Em dado momento pode ser visto de longe uma luz. Essa luz
emanava da terra, e era avermelhada como fogo. Aproximando-se do local, foi
possível perceber que essa luz era proveniente de uma enorme cratera cravada no
meio da paisagem. Foi então que eu percebi que esse era meu destino, todos que
ali estavam caminhavam para aquele imenso buraco. Quando meus pés finalmente me
fizeram alcançar a beira da cratera, vi o quanto ela era profunda e dona de uma
forma cônica, como um funil, seu fim era como a boca de um vulcão e labaredas de
fogo saiam do centro da cavidade. Esse era o destino de todas as pessoas que
vinham caminhando de todas as direções do deserto. Não sei discernir o que, mas
algo me empurrou para dentro daquele pesadelo, e comecei a deslizar pela
superfície escorregadia daquela abertura, feita de areia negra e rochas pequenas e médias,
diretamente para o abismo de fogo. Testemunhei inúmeras pessoas lutando contra
aquela queda, era uma imagem desesperadora, muitas daquelas pessoas choravam e tinham a mais verdadeira expressão de pavor estampada em seus rostos. De dentro do buraco flamejante
era possível ouvir gritos, berros e urros aterrorizantes. De tempos em tempos
uma lufada extremamente quente vinha de lá, fazendo com que nossos corpos se inflamassem. Nada mais podia ser feito naquele momento, não importa o quanto nós
lutássemos todos, invariavelmente, caiam no olho de fogo daquela fissura. Eu, por
minha vez, decidi abrir os braços e receber de peito aberto o caminho que
escolhi.
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