quinta-feira, 29 de maio de 2014

Intervalos arenosos.

Enquanto estava afundado nas areias escuras da realidade que não vivemos, presenciei minha identidade em atividades indesejáveis por dispositivos dispensáveis. Eu, um antigo companheiro e sua progenitora, acessamos uma passagem de alta velocidade para chegarmos até um portal que seria capaz de acelerar o tempo e nos levar a um destino que permaneceu desconhecido. Desconhecido, pois no processo, acabamos sendo surpreendidos por uma plataforma elevatória que nos fez ir de encontro com as águas turvas de uma baía, que há muito foi bela, paradisíaca e misteriosa, mas que hoje vive inundada por metais manufaturados, bestas desformes e um coalho de imundices e dejetos produzidos pelos habitantes moribundos de seus arredores. O desespero foi enorme, mas fomos salvos por um ser místico que nos permitiu escalar suas entranhas até estarmos novamente em um local seguro. Houve um intervalo no tempo. Quando recobrei a consciência estava em um carnaval passado, perdido, desnorteado e tentando compreender como havia chegado ali. Nesse local havia uma praia de composição pesada, com ruínas de um passado recente, resultado do abandono e da fúria insaciável da natureza, barracas de madeira podre e alguns figurantes aleatórios. O que me deixou atônito foi a lua que nascia no horizonte marítimo, imponente, amedrontadora, de escala descomunal e dona de um tom escarlate digno de chacinas trágicas executadas por forças superiores a nós. Era um sinal. Em minha companhia naquele momento estava alguém familiar, alguém que pertenceu a dias remotos, que entrou para minha história, mas que hoje só é capaz de ser banhada pela indiferença e pelo descaso que foi cavado com suas próprias atitudes. Em minha consciência não há mais dúvidas que esse resultado isso era inevitável, sobre isso não tenho mais o que falar. Caminhando por ali, embasbacado com o satélite que ronda nosso cotidiano, me deparei com cinco ou seis desocupados, queriam quantias e objetos que nos pertenciam, mas não tinham nada para nos ameaçar. Tentaram nos coagir com um pedaço de borracha similar a um artificio mortal, mas logo percebi a farsa e fui obrigado a devolver as ameaças com gargalhadas e deboches. Depois de alguns momentos em um entrave retórico, do nada, das sombras, como se minha própria imaginação tivesse conjurado aquele fato, surgiu um elemento surpresa carregando consigo um artefato ceifador, em minhas mãos algo semelhante apareceu. Lançamos nossas farpas ígneas em direções opostas, as dele me acuaram, mas não me atingiram, as minhas esfarelaram a caixa superior inventiva daquele individuo. Fugimos do local do imbróglio e ouvimos de longe o soar agudo e característico, que anuncia a chegada dos agentes do apocalipse. Não sei ao certo se foi antes ou depois disso, mas tive um encontro repentino com outra face familiar, essa morou por um período marcante nos meus desejos adolescentes, mas hoje, mal resta a curiosidade perturbadora de saber seu fim. O lençol obscuro que forrava o firmamento se foi repentinamente. Da mesma forma, me encontrei deslizando pelas vielas muito bem conhecidas do ambiente bucólico que vivi as melhores experiências da minha primeira vida. Era um momento radiante, o astro que nos alimenta com vida jorrava toda sua luminosidade naquela paragem, mas ao mesmo tempo, como um paradoxo geográfico, havia um frescor característico de épocas frias e suaves, essa sensação eu não sentia há quase uma década. Meu destino foi uma das tocas avermelhadas que haviam naquela vizinhança, dali saíram componentes amistosos, companheiros de desventuras, bravos, impetuosos e intrépidos. Caminhamos até as águas próximas, testemunhamos uma ressaca feroz, pouco vista, mas muito bem conhecida. No meio da maré, flutuando sem rumo, estava um conjunto de objetos usados para repousos breves e superficiais, desafiando um dos que me acompanhavam prometi uma quantidade monetária absurda, caso ele fosse capaz de trazer até a terra firme os itens que estavam à deriva. Inconsequente como sempre, saiu em disparada ao encontro do gigante devastador. Nadou contra a corrente, não alcançou o que queria, e no fim, só causou risos e preocupações. Os objetos sumiram. Na sequencia reapareceram com outra forma, complementar a anterior, amarelada e agregada em algumas unidades, causando confusão em nossas ideias. A aposta para apanhar esses utensílios foi dobrada. Sem vacilar, o mesmo alucinado partiu em sua busca pela vitória sobre os limites impostos pelas tradições. De nada adiantou novamente. Por um momento ergui minha visão ao infinito anil que repousava pacífico acima de tudo, vislumbrei a beleza etérea e pálida dos elementos que assumem formas coerentes somente em nossas mentes, cerrei os olhos e após inspirar lentamente um ar frio, despertei em uma manhã cinza, em um lugar solitário, para reviver os mesmos momentos de sempre.

Meu mergulho.

E se eu me entregasse? E se eu me conformasse com o mundo em que vivo e mergulhasse de cabeça nessa realidade transitória? E se eu me desapegasse das coisas que hoje eu acho fundamentais e verdadeiras e começasse a caminhar rumo ao mundo que todos vivem? Eu largaria o que faço, teoricamente por prazer, e iniciaria atividades para me agregar mais e mais à rotina determinada pelo sistema. Estudaria as nuanças requeridas para escalar até o cume que me seria determinado, pois há um limite lógico do que se pode ou não fazer nesse estado de subvida. Seria admirado por pessoas que também bebem dessa fonte, viajaria para lugares distantes, para me alimentar de informações pertinentes para poder fazer as engrenagens continuarem funcionando exatamente como o previsto. Acordaria nos mesmo dias, para andar sobre os mesmos calçados, para assistir as mesmas cenas, para proclamar as mesmas orações, para receber em troca disso uma quantidade fixa de algo virtual e convencionado como necessário para sobreviver. Talvez um dia, depois de vinte ou trinta anos, eu estivesse em alguma posição respeitável aos olhos da massa. Me apegaria certamente a alguns prazeres fugazes para poder segurar a onda dessa arrebentação constante, e no fim, tudo sairia como o que sempre foi, é e será para os que vivem assim. Poderia encontrar alegria nisso. Tenho minhas dúvidas. Mas do que adiantaria essa dança toda, se tudo isso não passa de uma realidade transitória? O contra ponto a isso é o desejo de viver algo diferente e me entregar de fato ao que me agrada como tarefas cotidianas. Sempre achei que se tratava de como nos enxergamos e do que valorizamos de fato em nossa jornada. Mergulhar de cabeça nessa convicção é muito mais difícil, pois a plataforma de saída é bem mais alta. Ela esta alocada em um lugar onde muitos gostariam de ir, mas que o senso comum tenta nos convencer que é inalcançável e perigoso. Sedutor para uns, ameaçador para outros. Viver esse risco é desafiar os próprios conceitos enraizados nesse mundo estranho.  Pode ser que no final, esse mergulho se transforme em uma tragédia, pontuada por alguma rocha oculta pelas águas dos sonhos. Uma coisa eu sei, não o fazer é ir contra tudo que acredito, é ir contra quem eu sou, é desistir de ser alguém de fato, e de viver uma realidade transcendente, não transitória. 

sábado, 29 de março de 2014

Sem mais solidão.

Existem coisas que se materializam em nossas vidas e nos preenchem de sentimentos indescritíveis. Apesar da ansiedade pungente por resposta sobre a origem da maioria delas, por muitas vezes, nós não somos perspicazes para desvendarmos esse mistério. Lembro-me bem de uma de nossas conversas em que despretensiosamente comecei a abrir meu coração para você. Foi um dos primeiros momentos que me senti profundamente encorajado a falar de peito aberto e sem medo, de coisas que rondavam e rondam minha mente perturbada e meu coração despendido. Em uma dessas noites tórridas compartilhei com você pensamentos que nunca haviam se consolidado em qualquer espécie de palavra, e que sempre estiveram reclusos nos caminhos tortuosos das minhas reflexões e sentimentos. Confessei a você naquele instante, que o que eu menos desejo para as pessoas é que sobre elas recaia o mesmo sentimento intenso de solidão que vinha me sufocando ao longo da vida. O verdadeiro caráter da solidão nunca é singular. Não lhe compreende simplesmente sua definição denotativa, mas sim toda e qualquer experiência solitária manifestada sobre o rebanho de seres que pairam nesse mundo. A mim, até o presente momento, coube descobrir algumas dessas facetas. Um desses temerosos aspectos que se revelaram para mim, que por sinal nunca achei que fosse me acometer, foi a ausência do amor. Mas depois de tantas idas e vindas essa maldição dolente me atingiu. Passei a crer com tamanha fé nesse meu destino moribundo, que sequei toda esperança que habitava em mim. A mesma esperança que outrora me preencheu de benevolência, paz e retidão, se apagou como uma fogueira extinta em suas pobres brasas e farelos acinzentados. Essa convicção torpe fez com que meu caminho se dispusesse em eventos efêmeros e relações completamente irrelevantes. Fez com que eu acreditasse cada vez mais que meu destino seria a reclusão em mim mesmo, o vazio completo, os prazeres fugazes e a rotina lancinante de uma vida nebulosa. Mas sempre somos surpreendidos. Os aspectos originais que fizeram com que conversas rotineiras se tornassem em um interesse mútuo por nossas individualidades ficarão incógnitos no tempo. Mas como já lhe disse, isso é o que menos importa. O que para mim se manifestou de forma determinante nesse encontro harmonioso, foi a capacidade que encontrei em você de despertar novamente em mim a adormecida e esquecida vontade de seguir em frente, de deixar para trás as mazelas vividas e poder recomeçar tudo, com o espírito revigorado e com o coração restaurado por bons sentimentos. Sentir isso é indescritível. Que a encruzilhada que sentenciou o encontro de nossas almas, nos leve a veredas pacificas, a rincões de felicidade, ao encontro essencial do ser, e que diante disso, por justiça e reconhecimento das forças que regem o universo, você nunca seja assolada pela ausência do amor.

Superação.

A solidão às vezes nos traz algo que raramente encontramos em nosso dia a dia, a serenidade. E a serenidade que esse momento nos traz é a própria resposta para muitas questões que acabam nos deixando aflitos e, por algumas vezes, perdidos. Ela nos confere um caráter peculiar de pensamento, expressado unicamente na capacidade de reflexão. Bem, nesse momento, algumas estradas nos são abertas. Por experiências passadas acabo tendo ciência que devo sempre me lembrar de quem eu sou e do que está guardado dentro de mim, dos meus sentimentos mais superiores, das minhas maiores marcas, do que vem regendo minha vida e me fazendo sempre escolher um desses caminhos. Nem sempre a via mais coerente foi a escolhida, mas em todas elas batalhas necessárias foram travadas. Minhas armas para essas batalhas? Alegria e esperança. Curiosamente, isso jamais foi sedimentado no meu espírito. Por inúmeras vezes os labirintos em que essas bênçãos foram ocultas foram desbravados somente por mim. Estar só nesses momentos nunca tornou essa busca mais fácil. Hoje, porém, sou agraciado pela convicção de que nunca mais vivenciarei esse estado. No meu próprio encontro, recebi outro coração para afastar de mim as angustias e dúvidas que antecedem o momento da escolha por uma nova trilha. Esse novo coração veio junto com uma alma que me ilumina, com palavras que me confortam, com um sorriso que me renova e com uma vida para ser compartilhada. Esse coração veio com um amor que é composto das coisas mais belas que as pessoas são capazes de manifestar. Assim, tenho certeza, que na plenitude desse encontro, a superação sempre estará a um passo.

Em meu jardim.

O que completa nossa essência? Parti em uma busca ávida pela resposta desse tratado filosófico, até então impossível de ser solucionado. Embrenhei-me no emaranhado de possibilidades do universo, contemplei nove sois poentes enquanto vagava por paisagens desconhecidas, foi-me oferecido banquetes e fui festejado pelos que congregam de um passado comum ao meu. Lutei ao lado de amores fraternos construídos pelo tempo e pela embriaguez, testemunhei a distancia imposta entre todos nós, mas nunca me lamentei por isso. Foram-me revelados frutos proibidos nessa jornada, nunca fui alertado sobre esse perigo. Ao experimentar suas texturas tive a alma envenenada e minha face marcada com expressões pesarosas e mórbidas. Nesse processo de experiências peculiares, a manifestação mais sincera do meu ser foi suprimida. Restou-me o silencio e a solidão. Senti-me pela primeira vez abandonado pela vigor da esperança e me convenci aos poucos de que essa longa estrada seria trilhada por um ensaio introspectivo de reflexões turvas e melancólicas. Segui então a curva confusa do meu destino e me convenci que somente um momento que fosse capaz de desviar-se do tempo seria capaz de me salvar. Esse momento chegou. Foi-me revelado então, por profecias deslembradas, que nossa essência se completa em nós mesmos. Parti então novamente em uma jornada, mas dessa vez não em busca de soluções, mas sim em busca de mim mesmo, do meu próprio encontro. Entre tormentas e batalhas sistemáticas contra semelhantes que não me desejavam nada, uma conspiração universal me levou até um jardim. Esse cenário natural era simples, porém emblemático. Localizava-se em uma paragem familiar, era retangular e amplo, cercado por rochas acinzentadas e desgastadas pelo tempo. Era composto apenas por uma grama verde clara, aparada a alguns poucos centímetros de um solo visivelmente fértil. Em seu centro, reluzente e majestosa estava uma única flor. Uma tulipa de um vermelho intenso, emanava de si mesma uma luz tão forte que era capaz de ofuscar-me os sentidos e apagar toda a dor do meu passado. A harmonia irrefutável entre o jardim e sua única habitante, me fizeram entender que, naquela manifestação impar de beleza e suavidade, eu finalmente me encontraria. Foi despertado em mim, de algum limite longínquo de meu espírito, meu mais sincero sorriso, e novamente meu coração pulsou. Cada instante que eu vivia naquele inóspito e pacifico canto do mundo, na companhia daquele ser magnifico, o encontro comigo mesmo se tornava mais real e explicito. Em alguns momentos o silêncio ainda se fazia presente, mas não me assustava mais, pois seu caráter constrangedor havia morrido. A solidão não era mais uma realidade palpável, somente uma memória estranha e anuviada, que foi sedimentada pela inundação da paz que eu encontrava ali. Ficou claro então, que cada passo da minha caminhada havia sido dado com o único propósito de me guiar até o despertar que aquele jardim me propiciava. Daquele momento em diante não haveria mais hesitação, se fosse necessário, eu caminharia para dentro do sol para viver a felicidade plena que aquele lugarejo e aquela singela tulipa me proporcionavam. Dei-me conta que a finitude universal de todas as coisas me ajudariam a manter o foco em busca da eterna dedicação para manter aquele jardim sempre vivido e sua peça vegetal central graciosa, voluptuosa e majestosa, como ela deveria sempre ser. Esse se tornou meu objetivo, por hora o cumpro bem. Hoje, as estações passam através de nossa essência, nos dão a certeza que essa conjunção existencial é originária de uma atmosfera distante, mas em nenhum momento torna essa manifestação passional trivial. Não importa qual foi meu caminho ou quantos foram os meus prantos, me encontrei nesse jardim, ele se tornou meu, e aqui, com toda a energia que alaga minha alma, cultivo a mais bela forma da natureza universal. Agora eu estou completo.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Senteça.

Eu imaginei inúmeras formas de ter essa conversa com você. Em inúmeros cenários e com companhias que seriam nossas confidentes mais leais e compreensivas, como juízas perpétuas de uma sentença já anunciada pela minha consciência. A verdade é que desde que essa situação se fomentou em um emaranhado de mal entendidos, desde o princípio de tudo, quando minhas incalculáveis e pesarosas dúvidas sobre o que era realmente valoroso em minha caminhada, tive uma sensação terrível de culpa, por pensar que você pensou, ou foi de fato, prejudicada por mim. Esse fantasma andará sempre ao meu lado. O fato é que mesmo depois de tanto tempo, e de ter a consciência absolutamente limpa, no que diz respeito a minha conduta, eu ainda sinto o gosto amargo da resignação que precedeu o momento desse desabafo, se assim o quiser chamar. Alimento a esperança de não ser mal interpretado novamente, ao menos não por você. Meu anseio e meu desespero de me livrar das correntes que me torturavam naquele momento podem ter me cegado diante de ocorrências tão obvias. As coisas mais fantásticas de nossas vidas acontecem sem o menor alarde do destino, elas simplesmente se materializam e ganham um leito na eternidade de nossa memória e de nossa passagem plena, mas assim também acontece com os desastres. Se eu pudesse, ou quisesse dramatizar mais essa história, lhe contaria que perdi noites de sono e que troquei palavras rudes com outros envolvidos para resguardar minha honra límpida, mas meu sono sempre foi farto e minha coragem deficiente para ser perverso com as pessoas que convivo, apesar, confesso, da vontade latente. Trazer isso a tona assim é mais difícil do que parece ainda mais em um momento tão crítico, em que somos alvos de olhares severos e julgamentos impiedosos. Minha maior frustração é não ter tido a chance de esclarecer isso no momento certo, foi como uma armadilha, idealizada para que eu não tivesse a menor chance de defesa, uma covardia recheada de hipocrisia e egocentrismo. Isso culmina na minha maior tristeza, imaginar, supor, que você em algum momento dessa história, foi pega de surpresa, por uma situação desconfortável, constrangedora ou em um momento inoportuno, por parasitas impiedosos. Isso parte meu coração. Essa é só mais uma das cicatrizes que supuram minha alma, que alagam minhas retinas com o eco avassalador da impotência e que me fazem clamar por uma chance, mesmo que seja em uma época distante no tempo, pela libertadora sentença do perdão.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Ao meu redor.

Há uma boneca de cera em meus devaneios. Não temos correntes, nada nos ata. Um grilo lunático brada sem causa. Capsulas do tempo, efêmeras e cancerígenas, estremecem minhas pernas. Pobres de nós que vivemos nessa ilusão. Bocarra dourada, qual sua causa? Que olhar. Queria eu provar uma dose, uma única dose, por uma única noite. Claro que não. Delgada realidade, não está ao alcance de nossas mãos. Então que percepção é essa? Estou alinhado a que? Entregue-se ao caos, ao acaso, e às suas vontades, quando acordares só restará sua alma.

terça-feira, 16 de julho de 2013

O que virá?

Em uma garrafa de vinho e em uma sinfonia vocalizada por metais dourados e tubos gloriosos, eu achei a porta para um novo universo. Inspirado, decidi caminhar pela estrada de vidro que se materializou diante de mim. O problema é que meu sapato era de aço e a estrada se quebrou depois de 330 dias de caminhada. Cai então em um turbilhão de carne e de um fluído que ainda não identifiquei. Foi bom, mas passageiro. O mais interessante é que essa experiência deixou de ser interessante depois que descobri que a cortina de fumaça que condensa nossa personalidade, pode ser removida com um olhar firme e brados lineares, não havia mais sentido em insistir em reviver algo que já se havia aprendido. Assim mudei a conjuntura. Despejei-me em um poço de notas agudas e efeitos colaterais áridos e dolorosos. A sombra que pairava sobre minha cabeça se foi, não de uma vez como eu desejava, mas aos poucos, o mais engraçado é que pela manhã ela sempre era mais intensa, e depois da farta refeição do meio do dia também, mas a noite era só um eco longínquo, ilusório e prófugo. A expectativa de viver arte me aguçava ainda mais a vontade de passar o tempo com comprometimento. Logo chegaria a hora em que eu estaria envolto em um jardim recheado de árvores frutíferas e intensamente produtivas, na realidade esse era meu maior incentivo. E a mudança de conjuntura veio na hora certa afinal. Não poderia de forma alguma entrar nesse viveiro formidável como um pequeno e indefeso mamífero, se eu tinha o intuito de coexistir com esses monumentos naturais. Muito menos como um larápio pronto a violar os frutos dessas espécimes ímpares para saciar sua sensação de vitória e usurpação.  Deveria invadir esse cenário marchando rumo a minha satisfação, pronto para me exaurir, e disposto a consumir todos os frutos disponíveis até o último grama. Destino privilegiado? Não, apenas esperanças efêmeras.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Hábito.

Hábito libertador que me assola. Prática intensa que me consome, que me guia a caminhos jamais explorados, que me guia aos recantos mais obscuros e inebriantes de minha identidade. Hábito quase abandonado. Batalhas sanguinárias contra a pobreza de minha personalidade, troco ofensas contra minhas fraquezas, me arrependo de ceder por algumas vezes, mas me orgulho ao levantar a flâmula da inspiração e regurgitar tempestades de incidências íntimas, lúcidas e sinceras. Hábito devastador. Não importa se são horas, se são alguns minutos, ou se tudo acontece no lampejo de um instante, meu imaginário sempre é sugado, como se uma fenda colossal se abrisse no solo do oceano e extinguisse a existência de todo o cenário marítimo em ínfimos segundos. Hábito que me compõe. Já não me concebo mais sem a presença dessa prática, mesmo que não saiba se há sentido, se há finalidade, se haverá conquistas ou aprendizados. Não importa, como já constatado, isso faz parte de mim. Hábito revelador. A cada episódio dessa trilha atemporal que percorro e desbravo entendo melhor a composição desse vasto cenário, compreendo melhor os agentes que vagam por esse cenário, reinvento esse cenário, revivo esse cenário, e sempre, sempre me abasteço de forças para enfrentar e lutar para sobreviver às mazelas desse cenário. Hábito que cura. Não há estado que não possa ser manifestado, não há enfermidade que não possa ser extinta, não há angustia que não possa ser aniquilada. Mas o mais importante, é que nesse hábito, encontro algo que se tornou cada vez mais raro de ser contemplado. Testemunho meu reflexo, indefeso, exposto e profundamente verdadeiro.

Adiante.

Esse foi o fim. Sentado na beira de um penhasco, olhando o horizonte, uma bela vista por sinal, refletia calmamente sobre os últimos e pesarosos eventos de minha ligeira existência. Decidi  dar cabo naquele sofrimento, me levantei e posicionei os dois pés com suas metades para fora do limite do abismo que se abria abaixo de mim. Fechei os olhos. Vi uma revoada de pássaros enormes que carregavam em seus bicos chaves douradas. Para aonde eles iam? Senti a terra tremer e atrás de mim um túnel de cores brilhantes surgiu como um trem e me envolveu naquele redemoinho de pânico como um turbilhão causado por ondas marítimas revoltas. Um eco se ouviu naquele local. Nas paredes desse túnel tive a visão de estranhos andando em ruas estreitas, seus rostos não eram dotados de olhos, bocas ou narizes, mas em alguns eu podia contemplar uma face conhecida. Tive medo. O eco estava mais forte. Do chão brotou um gramado espesso, dono de um verde muito escuro, e logo me vi perseguindo coelhos brancos, todos muito parecidos, porém seus olhos eram de formatos e cores variadas. Procurava por um específico, de olhos pequenos e totalmente avermelhados. Não o achei. O túnel voltou a me envolver. Fui guiado então até uma praia. O tempo estava instável, com cara de chuva, mas mesmo assim queria muito entrar no mar. Vi um grande amigo se aproximar na companhia de outras pessoas, não queria a companhia de ninguém, estava ali para ficar sozinho e comungar aquele momento somente com a manifestação agressiva que se fazia presente nas ondas daquela praia. Porém antes mesmo que eu pudesse correr em direção ao mar para evitar aquele confronto social, fui abordado pela presença irradiante de um dos mais belos fenômenos da natureza que eu já havia visto. Não há forma de ser justo com aquela forma. Posso somente dizer que fui guiado sem perceber até as águas agitadas do oceano e lá fiquei por um período razoável, o suficiente para ver meus dedos enrugados. Sem aviso prévio o mar secou e se tornou um deserto. Não compreendi o que havia acontecido, nem com aquela massa de água colossal, nem com os outros seres que estavam por perto, tudo sumiu. Meus olhos agora estavam cansados, como os olhos de um moribundo que não dorme há dias, eu os sentia inchados, como quando acordamos de horas seguidas de sono. Novamente o túnel me envolveu. Dessa vez o eco era ensurdecedor. Tapei os ouvidos em uma tentativa inútil de abafar aquele som. Era algo vocalizado. Eram pessoas. Se fosse uma única pessoa, certamente seria um som suave, mas eram todas as pessoas do mundo, as que estavam vivas e as que já estiveram. Fiquei ensandecido. Parece-me que isso durou algumas horas, já não tinha mais condições de quantificar o tempo. Vi então diante de mim, brotar do chão, uma enorme mão, primeiro os dedos, depois a palma e por fim o pulso. O som intenso parou. A mão pendeu para trás e abriu os dedos o máximo que pode, acima, no firmamento, um dos pássaros enormes que tinham pairado sobre mim deixou a chave que carregava em seu bico cair, acertando o centro daquele membro gigantesco. Com destreza ímpar a chave dourada foi posicionada entre o polegar e o indicador da mão, ela se aproximou com cautela do meu peito e fez a chave me tocar, senti um ardor mortal, vociferei um urro de dor, eu mesmo me estremeci com o desespero contido naquele brado. Meu peito se abriu ao meio, eu tentava em vão, segurar as duas metades de mim que se separavam para evitar aquele espetáculo de horror, mas não importava quanta força fizesse nada adiantava. Então de dentro de mim saiu meu coração, esplêndido, de um vermelho vívido, pulsante e proprietário de um vigor descomunal. Ali, naquele momento, não tive dúvidas e entendi exatamente o que devia fazer. Em um piscar de olhos, vi novamente o horizonte que imperava naquele penhasco, meus pés ainda estavam com suas metades para fora do limite do desfiladeiro. Respirei fundo, dei meia volta e caminhei em direção à vida para doar a quem merecesse o melhor de mim.